Mostrando postagens com marcador contos autorais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos autorais. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008


A ESTRELINHA QUE FICOU

Conto Oriental





O caso que vou narrar, meu amigo, aconteceu há muitos e muitos anos. As estrelinhas do céu resolveram, certa vez, deixar as alturas em que vivem. Deixariam o céu e viriam todas a Terra. “Vamos para a Terra! Vamos para a Terra!" – gritavam com alegria as estrelinhas do céu. – Na Terra há mares, há rios e há florestas! Na terra há frutos, há flores e há perfumes. Vamos todas para a Terra! As estrelinhas falaram ao Anjo da Serena Compaixão. Esse Anjo da Serena Compaixão é que vigia e comanda, por ordem de Deus, todos os astros luminosos do céu. O anjo da Serena Compaixão sabia que as estrelas, que parecem, lá longe no céu , tão pequeninas, são grandes , imensas. E foi , por isso, falar a Deus, o /senhor da Eterna Bondade. “Deus Poderoso, as estrelinhas do céu querem ir para a Terra. Mas são pesadas enormes e cheias de calor. A Terra não poderia conter constelações q povoam o céu. Deus , o Senhor do Mundo, sorriu bondoso e respondeu: Ora, tudo é muito simples . Eu permitirei que as estrelinhas desçam do céu e passem a viver na Terra . sim , irão para a Terra. Mas elas descerão e permanecerão, assim pequeninas , como aparecem lá nas alturas; pequeninas e bem pequeninas. E sempre pequeninas e brilhantes permanecerão na Terra. Houve, neste dia, ao cair da noite, uma chuva maravilhosa de estrelas. No céu ficaram o sol, a lua e um cometa rabugento , de cauda comprida , que não quis descer. Mas as estrelas desceram. Desceram e encheram a Terra. Espalharam –se por toda parte . pelos campos, pelas praias, pelas estradas e pelos jardins. Havia estrelinhas brancas, azuis, verdes, roxas, amarelas. Havia até (vejam só!) uma estrela furta-cor! Que beleza ! Algumas ficaram bem quietinhas, a cintilar, no alto das torres; vieram outras pousar nas fontes, nos repuxos, ou saltitar entre as flores e iluminar os bosques. As mais pequeninas, brincalhonas, apostavam corrida com os vaga-lumes: outras iam devagarzinho assustar os sapos que cochilavam tranqüilos entre as pedras junto das lagoas. Que alegria para as crianças! Que alegria! Mas no fim de poucos dias as estrelinhas começaram a fugir da Terra , aos grupos , aos bandos. Deixaram a Terra e voltavam para o céu. Voltavam a brilhar lá em cima, para além das nuvens, para além da Lua. O anjo da Serena Compaixão ao observar que as estrelinhas voltavam, interrogou-as: “Por que vocês voltaram?” A primeira estrela respondeu: Vi tanta maldade na terra que fiquei triste . muito triste e resolvi voltar para o céu. Outra estrela, sendo interrogada, disse ao Anjo: Na Terra senhor vi egoísmo, vi ingratidão e perfídias! Vi filhos falando grosseiramente com seus pais! Vi fracos perseguidos e espancados pelos fortes. Meu coração ficou abalado. E por isso, e só por isso, resolvi voltar para o céu. e assim todas as estrelinhas, por terem visto maldades na Terra, voltaram ao céu. E cada uma , ao chegar , ia muito quietinha, retomar o seu antigo lugar no meio das constelações. O anjo as contou e percebeu que vinte mil e seis estrelinhas tinham voltado. Estranhou o anjo a conta pois faltava uma estrela para completar o número das que tinham descido a Terra. E as estrelas lhe contaram que a estrelinha verde da esperança, boa e velha companheira, não havia voltado. A estrela verde da Esperança! É por isso , meu amigo , que os homens , todos os homens, nos momentos mais tristes da vida, nos momentos de perigo, de dor ou de aflição, nunca perdem a esperança... É que a estrelinha da esperança, nossa boa amiga, deixou o céu e veio (diz a lenda) viver na Terra e vive, para sempre, no coração dos Homens. Foi a única que ficou ...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

"Homens e mulheres adoram Iemanjá e a chamam de mãe, e ela os aceita como filhos. Eles a Chamam de Iemanjá, que na lingüa dos orixás quer dizer Mãe dos Peixes. Ela também é chamada de Odoiá, que é o mesmo que Minha Mãe, Nossa Mãe, ou Nossa Senhora. " (Prandi, 2007, p. 53)

"Houve um tempo que Iemanjá era casada com Oxalá, o Grande Orixá. Ela tinha como missão tomar conta de Oxalá e de sua casa.Mas Iemanjá achava que a missão não lhe dava o prestigio merecido. Cuidar de Oxalá era um encargo honroso, mas para ela isso era pouco, queria uma tarefa grandiosa, em que pudesse usar de poderes que os demais invejassem. Oxalá era o pai de todos os seres humanos, não era? Então, sendo casada com ele, ela era a mãe. Queria honra maior? Ela queria . Queria ser chamada de mãe, sim, mas que fosse por seu próprio mérito, e não por ser casada com o Criador. Enquanto cozinhava para Oxalá, preparava seu banho, alvejava suas túnicas brancas, Iemanjá falava sem parar. Queria tanto fazer alguma coisa de grande, ter uma missão que a tornasse indispensável, estar verdadeiramente à altura de Oxalá, o Grande Orixá.
Tanto falou no ouvido de Oxalá, tanto reclamou que ele enlouqueceu.
E agora? Iemanjá se assustou. O que diriam os outros? em vez de cuidar de Oxalá, ela o fizera adoecer. Certamente seria castigada, nunca teria os poderes que almejava.
Iemanjá tratou de curar a cabeça de Oxalá. Com a ajuda de Exu e Ossaim, que sabia tudo sobre o poder curativo das plantas, Iemanjá preparou banhos e ungüentos para a cabeça de Oxalá, fez oferendas, cuidou para que ele repousasse num ambiente todo branco, limpo e silencioso, rezou. Em pouco tempo Oxalá ficou bom da loucura, sarou.
Olorum gostou do resultado e ordenou que, a partir de então, Iemanjá cuidasse da cabeça de todos os homens e mulheres. Demonstrara ter talento para isso...
...Agora sim. Os humanos sabiam que Iemanjá tinha força para ajudar os loucos, os deprimidos, os de mente fraca... Os humanos dançavam para ela e a chamavam de Mãe das Cabeças, Mãe da Humanidade." (pag.40-43)
Reginaldo Prandi, Contos e Lendas Afro-brasileiros - A Criação do Mundo, Cia das Letras, 2007
Joana Lira, Ilustrações.

domingo, 3 de agosto de 2008

Entre o Leão e o Unicórnio




de Marina Colasanti



"No meio da noite de núpcias, o rei acordou tocado pela sede. Já ia se levantar, quando junto à cama, do lado da sua recém-esposa, viu deitado um leão.
- Na certa - pensou o rei mais surpreso do que assustado -, estou tendo um pesadelo.
E mudando de posição para interromper o sonho mau, deitou a real cabeça sobre o real travesseiro. Em seguida, adormeceu.
De fato, na manhã seguinte, o leão havia desaparecido sem deixar cheiro ou rastro. e o rei logo esqueceu de tê-lo visto.
Esquecido ficaria, se dali a algum tempo, acordando à noite entre um suspiro e um ronco, não deparasse com ele no mesmo lugar, fulvo e vigilante. Dessa vez, custou mais a adormecer.
Quando a rainha despertou, o rei contou-lhe do estranho visitante noturno que já por duas vezes se apresentava em seu quarto.
- Oh! Senhor meu marido - disse-lhe esta constrangida -, não ousei revelar antes do casamento, mas desde sempre esse leão me acompanha. Mora na porta do meu sono, e não deixa ninguém entrar ou sair. Por isso não tenho sonhos, e minhas noites são escuras e ocas como poço.
Penalizado, o rei perguntou o que poderia fazer para livrá-la de tão cruel carcereiro.
-Quando o leão aparecer - respondeu ela - pegue a espada e corte-lhe as patas.
Naquela mesma noite, antes de deitar, o rei botou ao lado da cama sua espada mais afiada. E assim que abriu os olhos na semi-escuridão, zac! Decepou as patas da fera de um só golpe. Depois, mais sossegado, retomou o sono.
Durante algum tempo dormiu todas as noites até de manhã, sem sobressaltos. Mas numa madrugada quente em os edredons de pluma pareciam pesar sobre seu corpo, acordando todo suado viu que o quarto real estava invadido por dezenas de beija-flores e que um enxame de abelhas se agrupava na cabeceira. Depressa cobriu a cabeça com o lençol, e debaixo daquela espécie de mortalha atravessou as horas que ainda que ainda o separavam do nascer do dia. Só ao perceber o primeiro espreguiçar-se da rainha, emergiu de dentro da cama, contando-lhe da bicharada.
-É que dormindo ao seu lado, meu caro esposo, cada vez mais doces e mais floridos se fazem meus sonhos - explicou ela, sorrindo com ternura.
E ele, desvanecido com tanto amor, pousou-lhe um beijo na testa.
Muitos meses se foram, tranqüilos.
Porém uma noite, tendo jantado mais do que devia à mesa do banquete, o rei acordou em meio ao silêncio. Levantou-se disposto a tomar um pouco de ar no balcão, quando, caracoleando sobre o mármore real do aposento, viu aproximar-se um unicórnio azul.
Não ousou tocar animal tão inexistente. Não ousou voltar para cama. Perplexo, saiu para o terraço, fechou rapidamente as portas envidraçadas, e encolhido num canto esperou que a manhã lhe permitisse interpelar a rainha.
- É a montada da minha imaginação - escusou-se ela. - Leva meus sonho lá onde eu não tenho acesso. Galopa a noite inteira sem que eu tenha controle.
Tão bonito pareceu aquilo ao rei, que na noite seguinte, quer por desejo, quer por acaso, no momento em que a mulher adormeceu, ele acordou. Lá estava o unicórnio com seu chifre de cristal, batendo de leve os cascos, pronto para a partida. Desta vez o rei não temeu. Levou-lhe a mão ao pescoço, alisou o suave azul do pêlo, e de um salto montou.
Unicórnios de sonho não relincham. Aquele levantou a cabeça, sacudiu a crina, e como se pisasse nos caminhos do vento, partiu a galope.
Galoparam a noite toda. Mas antes que o sol nascesse, quando a escuridão apenas começava a derreter-se no horizonte, os cascos mais uma vez pousaram no mármore. E a real cabeça deitou-se no travesseiro.
-Sonhei que vossa majestade fugia com a montada de minha imaginação - disse a rainha ao esposo, de manhã. - Mas estou bem contente em vê-lo agora aqui ao meu lado - acrescentou numa reverência.
O rei, porém, mal conseguia esperar pelo fim do dia. Tão rica e vasta havia sido a viagem, que só desejava montar novamente naquele dorso, e, azul no ar azul, descobrir novos rumos. Pela primeira vez as tarefas da coroa lhe pareceram pesadas, e tediosa a corte. Da rainha, só desejava que, rápido, adormecesse.
E a cada noite, mais diferente ficou.
Já não queria guerrear, nem dançar nos salões. Já não se interessava por caçadas ou tesouros. Trancado sozinho na sala do trono durante horas, pensava e pensava, galopando na lembrança, livre como o unicórnio.
Ressentia-se porém a rainha com aquela ausência. Doente, quase, de tanta desatenção, mandou por fim chamar a mais fiel das suas damas de companhia. E em grande segredo deu-lhes as ordens: deveria esconder-se debaixo da cama real, cuidando para não ser vista. E ali esperar pelo sono da rainha. Tão logo esta adormecesse, veria surgir um leão sem patas. Que não temesse. Pegasse as patas que jaziam decepadas à sua frente, e, com um fio de seda, as costurasse no lugar.
Tendo obtido da moça a promessa de que tudo faria conforme o explicado, deitou-se a rainha logo ao escurecer, pretextando grande cansaço. No que foi imediatamente acompanhada pelo rei.
Custava porém o sono chegar. Virava-se e revirava-se o casal real sobre o colchão, enquanto embaixo a dama de companhia esperava. E de tanto esperar, o sono acabou chegando primeiro para ela que, sem perceber, adormeceu.
Acordou noite alta, quando há muito o unicórnio vindo buscar o seu ginete. Assustada, não querendo faltar com a promessa e ouvindo o ressonar da rainha, rastejou para fora da cama. Lá estava o leão, deitado e imóvel. Lá estavam as patas à sua frente. Rapidamente pegou a agulha enfiada com longo fio de seda, e em pontos bem firmes costurou uma pata. Depois a outra.
Leões de sonho não rugem. Aquele levantou a cabeça, sacudiu a juba e firme sobre as patas retomou a sua tarefa de guardião. Nenhum sonho mais sairia das noites da rainha. Nenhum entraria. Nem mesmo aquele em que um unicórnio azul galopava e galopava, levando no dorso um rei para sempre errante."